sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

olhar in-preciso, com nelio souto e ana sandin



pessoal,

segue abaixo um trabalho que fiz, super bacana, com uma produção super profissional. espero que gostem. não se esqueçam de deixar os comentários hein. valeu!

(às vezes é preciso ir antes no post culinária da minha infância e dar pausa no type da rádio cbn, que costuma entrar com áudio assim que a página do blog abre)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

mercedes sosa chega a jacuri

a tríplice aliança joão, nelio e rapha


no último final de semana fui com uns amigos pra jacuri. estavam carol, alexandre e a tríplice aliança da rosa dos ventos eu, joão e raphael. arrisco dizer sem medo de errar que foi um dos melhores finais de semana que passei em jacuri desde que sai de lá. acho que o pessoal que foi comigo também gostou do que conheceu.

a viagem foi bacana por que pude enxergar a cidade por um outro ângulo, com um olhar mais afinado. além do mais, talvez eu nunca tenha me sentido tão próxmo da minha família como dessa vez. não sei bem explicar como e nem por que mas, a cada vez que abraçava meu pai, minha mãe ou meus irmãos, eu os sentia meus, próximos de mim. meus amigos também levaram muita energia boa lá pra casa e o resultado de tudo foi uma mesa cheia de pessoas felizes, descontraídas, almoçando um frango caipira que meu amigo alexandre gentilmente nos trouxe lá da roça do "tio mazin". vivi momentos plenos de felicidade e reflexão. prometi a mim mesmo me fazer mais presente por lá aprtir de agora.

também foi a viagem que me senti mais perto do povo. legal eu poder viver esse resgate agora. justo agora que vivo meu momento de desconstrução, não seria apenas uma coincidêcia. tenho pensado em vôos mais altos num médio prazo.

os amigos que foram comigo também deixaram sua mensagem para jacuri, traduzida em certo momento, com o carro aberto tocando em alto e bom som mercedes sosa na porta do bar do nilson, clamando "viva la nicarágua". as pessoas não entenderam muito bem o sentido daquilo que viam e ouviam, mas curtiram e com certeza jamais se esquecerão.

essa viagem marca a segunda da nossa série (antes passamos por cláudio - mg) e a última do ano. embora tenhamos levado só uma fita e por isso não deu pra filmar mais que uma hora, conseguimos umas imagens bacanas. em 2010, sairemos brasil à fora levando nossos idéias e nossa rosa dos ventos. foi nessa viagem a jacuri que nasceu nosso blog. falarei dele aqui tão logo já esteja formatado.

minha irmã e minha mãe


acho que é isso. só posso dizer que é bom sairmos do óbvio e corriqueiro de vez em quando, para botar os pés na estrada e ir levar nossa presença, nossa existência, nossos sonhos e ideologias, mesmo que de forma sutil, a quem não tem muito a quem ouvir. esse é o nosso papel enquanto "idealistas".

(gostei muito dessa foto da minha irmã e minha mãe na varanda lá de casa e não poderia deixar de postá-la.)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

mudou tudo



e eis que muda tudo.
e eis que de repente eu não sou mais eu
(ou agora é que sou?)
olhei pra mim e não me reconheci.
me corrompi.

e eu era o quê?
era alguém sem respostas, isso é o que eu era. com muitas perguntas e sem respostas.
(continuo sem respostas, mas pelo menos agora não as busco mais nas pessoas. vou à luta colhê-las)
paliativos são para cômodos covardes.
eu quase não me perdôo.
eu, um cômodo covarde!

fiz discurso falso-moralista. desci o pau na futilidade e não fiz outra coisa, senão me "futilizar".
"futilizei" meus sonhos,
"futilizei" minha ideologia,
"futilizei minha existência.

e eis que me encontro.
e eis que vou de encontro ao meu resgate,
minha salvação,
minha redenção.

e eis que consigo verbalizar,
materializar uma existência latente, convicta, certa ao menos do que não quero.
(não posso mais deixar de ser eu. deixar de mudar o mundo, deixar de acreditar que posso.)

é bom saber que não estamos sozinhos. acabo de encontrar o último ideologista que respira o mesmo ar que eu. voltei a acreditar em mim, nas pessoas, no mundo.

e nasce então minha descontrução, como um ator em processo de criação indo ao encontro da sua personagem. muitos atores começam essa composição de um ser com vida, de fora pra dentro. elabora os trejeitos, o andar, o gesticular, os caguetes. quando se dá conta de que a "casca" está pronta, desconstrói tudo, tira tudo que é sem vida e logo, sem verdade. os "sem porquês", os exageros, tudo pra entrar a sensibilidade, a carga existencial do personagem, que essa sim, com propriedade, estimulará tudo que é externo, visto, ouvido, tocado, sob um novo olhar, um novo acontecer. acho que somos aquilo de que o coração está cheio. quem nos apresenta enquanto pessoa é nossa essência.
a essência é sentida.

sabe tudo aquilo que você achava que precisava pra ser alguém realizado e feliz?
esquece!
você não precisa de nada disso.
eu não preciso de nada disso, de nada daquilo. eu preciso de mim, completo, intenso, fazendo o que acredito, ao lado de pessoas na qual acredito.

por isso me encontrei,
me re-modelei,
fiz alguns ajustes
(uma tatuagem com um significado muito importante)
e agora comprei a briga e escolhi meu lado: apóio a sensibilidade, o olhar. admiro quem vai além, quem se abdica do cômodo para se conhecer, se olhar no espelho e se encarar. quero do meu lado pessoas que fazem a diferença.
(e viva a diferença!)

é utópico?
-não. você ganha habilitação para mudar o mundo quando você muda a você mesmo.

acho que é isso. depois de quase dois meses sem postar, venho fazê-lo numa ocasião muito mágica e especial.
abaixo, uma música que marca muito esse momento, e um trecho do pensador norte-americano jim rohn, que diz:

Deixe outros viverem vidas pequenas, mas não você.
Deixe outros discutirem sobre coisas pequenas, mas não você.
Deixe outros chorarem por pequenas feridas, mas não você.
Deixe outros deixarem seus futuros na mão de alguma outra pessoa, mas não você.



"Solo le pido a Dios por Nicaragua- Mercedes Sosa"

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

culinária da minha infância

banana caturra


essa semana fui num bate-papo na "travessa" com o pessoal do "cbn sabores". já conhecia o trabalho do marcelo guedes como âncora da cbn mas acho que o rádio não consegue passar o quanto ele é agradável. sempre acho que o rádio formaliza muito as pessoas, as deixam mais sérias.

conheci também o rusty (marcellini), sujeito de uma graça ímpar. ganhou logo minha simpatia quando fez umas colocações bem interessantes sobre o mercado gastronômico de belo horizonte (e o compara com o de são paulo), com as quais eu compartilho plenamente. não sou nenhum entendedor do assunto, mas meu posicionamento com relação à gastronomia é igual ao que tenho com relação ao teatro, ao cinema, e à cultura numa forma geral (pra mim gastronomia é cultura): deve-se (nós, pouco ou muito entendidos do assunto) difundir tais culturas, levá-las até onde ela não chega por si só, e fazer com que essas signifiquem de fato novas oportunidades para pessoas menos favorecidas. acho que gastronomia é um assunto que deve se livrar (por que acho que "eles" prendem o assunto com pratos e ingredientes de que a maioria das pessoas nunca ouviram falar) dos restaurantes granfinos da zona sul. deveria-se conseguir comer bem sem ser nenhum milionário. ganha minha simpatia, o cheff (é assim mesmo que se escreve?) que trabalha na descontrução do sofisticado. sim, por que sou atraido pelo diferente e o dito sofisticado todo cheff já faz.

o mercado vive em função do consumidor, ou o consumidor vive em função do mercado? há demanda, não há demanda...

o fato é que o "la greppia" tem rodízio de massas com pelo menos umas seis ou sete opções, ainda com sobremesa, caldos e tal. a comida é boa e custa em torno de R$ 11,00. só tem um problema: embora o restaurante seja bem espaçoso, o tempo médio de espera por um assento fica em torno de 30 a 40 minutos (o que eu acho um absurdo. só janto lá quando não tem fila). detalhe, difícil dizer uma hora que é mais vazio. o "la greppia" funciona 24 horas. meu sonho é que algum cheff empreendedor "enxergue" que precisamos urgentemente de um restaurante nas imediações que absorva a clientela que o "la greppia" não consegue atender. fica aí a dica.

no bate-papo também esteve presente a jornalista fabiana arregui, que é crítica de cerveja. muito simpática, despertou em mim curiosidades sobre cerveja e decidi até que vou pesquisar um pouco mais sobre o assunto a partir de agora.

bom, depois do encontro, mandei um e-mail falando um pouco da culinária da minha infância. fui gentilmente respondido e levaram meu assunto ao ar no programa de hoje. comecei a escrever uma "série" sobre a culinária da minha infância. depois posto aqui pra vocês.

abaixo segue o podcast do programa de hoje, falando da "culinária da minha infância".

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"A vida é arte do encontro"

nascer do sol no arpoador - foto de sheila sampaio



"samba da benção - vinícius de moraes



(...)é melhor ser alegre que ser triste
alegria é a melhor coisa que existe
é assim como a luz no coração(...)



(...)a vida é arte do encontro
embora haja tanto desencontro pela vida
há sempre uma mulher à sua espera
com os olhos cheios de carinho
e as mãos cheias de perdão
ponha um pouco de amor na sua vida
como no seu samba(...)




pra ler ouvindo "samba da bênção", de vinícius de moraes, interpretada por pierre barouh (em francês). nada mais carioca.

deixei de protelar, adiar meus prazeres carnais e sobre humanos e sem pensar muito, fugi para o rio por um final de semana.

ah! como me faz bem aquele calor abafado, a maresia batendo salgadamente no rosto. o gingado, o descomprometimento com quase tudo (menos com a felicidade) do carioca. metade de mim, pelo menos, é carioca.

me recobrei do quão bom, divino, vital, é andar pela lapa, correr pela areia, comer carne de sol com aipim e manteiga de garrafa na feira de são cristóvão, comer feijão preto.

e o sotaque? música para os meus ouvidos. o rio tem as misturas que me compôem.

foi uma viagem maravilhosa. recalculei alguns valores e cheguei a conclusões vastamente prazerosas. exercitei meu apego ao que é bom de verdade, ao que é gratificante e sincero.

que a felicidade não tem preço, o comercial de cartão de crédito já disse, mas que custa tão pouco ser feliz, só fui aprender agora, na pele.

quanto custa você ser recebido por uma amiga que não vê a mais de um ano, com café quentinho, pão fresco, suco natural e uma toalha branca e felpuda sobre a cama, convidando a um bom banho?

(embora eu não tenha resistido a um cafezinho na starbucks)

um abraço de saudade renova qualquer corpo, qualquer alma. extrema troca de energia, de emoção, de força, sei lá, algo quase sobrenatural, que inclusive, não sei como consegui viver tanto tempo sem.

é muito bom rever a quem amamos. é muito bom ser abraçado por mais de cinco segundos, daqueles abraços que começam nos pés dos abraçantes, milimetricamente encaixados, passam pelo encontro do corpo colado, transcendente, e chega a cabeça, recostada no conforto de um ombro. abraçar é muito bom.

(me viciei em abraços. algumas pessoas que têm convivência diária comigo tem me estranhado. tenho abraçado muito depois que voltei do rio)

além dos efeitos dos abraços que troquei, minha viagem serviu também para que eu matasse saudade de lugares e pessoas inesquecíveis e de quebra renovasse minha admiração por alguns grandes amigos. é muito bom bem-querer e ser bem-quisto.

na sexta, da lapa fui direto ver o sol nascer no arpoador. a sensação que esperimentei foi como se nunca tivesse deixado o rio, como se esse tempo que morei fora de lá, não tivesse existido. o nascer do sol é o mesmo, a cor é a mesma, ao mesmo tempo que o momento é único, tudo é diferente.

(diferente estou eu depois dessa viagem)

jack, seani, liv e eu


liv foi minha companhia constante. tão gentil, tão solícita, tão companheira. (liv é das poucas pessoas que acredita em minhas loucuras).

reencontrei seani e jack. seani é um amigo muito querido, a quem admiro pela determinação. "amigão", é como ele me trata. no sábado, depois de um cafezinho gentilmente preparado por minha amiga jack, passamos no mundial, compramos vinho, uns petiscos e fomos pra casa da liv. foi a vez do seani ir pra cozinha, nos preparar seu prato chefe: sopa de lentilha. quando nos demos conta, já era quase dia e lá se ia a segunda garrafa de um bom chileno. quando o papo e a companhia são bons, parece que não há tempo, não há "lá fora".

como tudo que é bom... precisei voltar. deixei plantado lá, aguns sonhos, que vez ou outra pretendo voltar para regar. sei que estarão bem cuidados na minha ausência, pelos meus queridos amigos.

enquanto isso (gosto dessa colocação) vou seguindo minha vida mineira, poeticamente pacata. estou mudando de bairro, de ares, talvez de vida. parafraseando um grande amigo: "saudade aqui é mato". (e eu, carrapato)

au revoir, amis!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

vem me salvar desse altruísmo

foto: gabi (tipo)

difícil falar de planos, sonhos, desejos, amores... principalmente partindo de quem está, como diz viviane (mosé) "sempre querendo, querendo"...
e de tanto querer...

...a vida continua nesse som gostoso de música, de vento, de silêncio. madrugadas vazias e muita saudade, disso tenho enchido meus dias. vez ou outra aparece um "algo a mais", que chega até a ser engraçado. um engraçado diferente. (gostosamente engraçado, como bolhas de gás de coca-cola estourando no nariz)

mas eu me apaixonar agora? só se for pelo meu próprio umbigo, que sinceramente, não é lá tão atraente.

e se eu me apaixonasse por mim mesmo? -é, já que sou tão movido à paixões (e não dou conta de tanto amor que tenho pra oferecer), talvez não fosse uma má idéia.

viveria comigo um amor romântico, intenso, poético (é como sei amar). vez ou outra trombo com quem já tenha experimentado isso em mim. é estranho alguém a quem você conheceu tão intimamente de repente se torna um estranho e evita te encarar.

sobre amor, sonhos e rotinas, me recolhi de certas investidas e parei pra reparar um pouco mais em minha existência, meus detalhes, minha consistência. lembrei de quando me apaixonei por uma casa amarela, na subida do alto da boa vista, de quando rodei o rio inteiro à procura de um prato esmaltado, só para me recordar vivamente de quando era criança e comia sentado no chão, de prato na mão. é bom se recobrar da pessoa que fui, que queria pouco, vivia pouco e sonhava muito. naquela época, uma pessoa que não esperava por ninguém. já hoje, vivo esperando.

e enquanto você não vem, eu vou te desenhando nos meus poemas, nas minhas telas, nas músicas que ouço contemplando o teto do meu quarto, em noites como a de hoje.

vem me salvar desse altruísmo.

tá tudo pronto. aprendi a declamar poema, entendo um pouco de vinho, arranho uma língua estrangeira, sou boêmio mas sou poeta, cozinho nos finais de semana, aprendi a fazer supermercado (inclusive a escolher melancia na feira), já faço de cabeça, sem olhar na receita, uma torta deliciosa que minha mãe ensinou, parei de beber até dar vexame, penduro toalha molhada no varal, não molho mais a tampa do vaso e escovo os dentes de costas pra não respingar pasta de dente no espelho.

serei bem sucedido. uma férias por ano, natal em família, amigo-oculto. me lembrarei do aniversário de todos os meus (nossos?) afilhados.

prometo que aprendo o que faltou.

não sei. de nada adianta se não tiver o tal clima, o sino. talvez fosse melhor, por hora, deixar disso, não esperar tanto,
quanto,
um canto?

vamos.
abrigo?

esqueci de dizer que agora eu também pinto e arrisco uns passos de dança. ( a vida é muito boa pra se viver enganado. gosto do amor que se faz presente, de presente)

escrevo poemas também. ontem rabisquei um sambinha pra dançar contigo. (será que evolui, cresci e estou mais maduro?)

enquanto isso vou tendo a mim por campanhia. a mim e aos meus amigos. não sei o que seria de mim sem eles, que têm me colocado um sorriso descompromissado (desses que movimentam todos os músculos do rosto).

tenho me esforçado pra não me entediar. deve ser a falta do mar, a saudade dos amigos do rio. os dias têm ficado quentes, o céu sem nem uma nuvem e eu sem saber muito bem o que fazer. quando não subo a serra (do curral), não tenho onde pousar minha contemplação. por isso belo horizonte, quando não café do palácio ou pelicano, é meu quarto, com chico tocando no celular, cortina encardida e coisas espalhadas. bagunça de cidade (e de quarto), de quarto (e de cidade), trânsito caótico (roupa suja), quarto que não é minha cara, caótica, pára! (som de apito)

vou me mudar.
(acho que) não ainda de cidade.

ao som da minha música da semana "misread", king of convenience.

curto pra caramba o som dos caras. tom e ritmos perfeitos. música pra se ouvir deitado numa grama procurando cavalo e monstros nos desenhos das nuvens. há um trecho da música que acho muito bacana, que diz:

"as friend is not a means
you utilize to get somewhere


em português:

"um amigo não é um meio
que você usa pra chegar a algum lugar


assistam ao clipe, que eu particularmente gosto muito. gosto da viagem da câmera pela cena.



vou ficado por aqui (suspiro).

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

100 dias para decidir nosso futuro

foto: campanha institucional greenpeace


amigos,

sábado vai rolar uma passeata bem legal, do pessoal do greenpeace brasil, simultaneamente em várias cidades. eu (associado de carteirinha) lamentavelmente não estarei lá por causa do "cultura na calçada" (minha terceira e feliz edição do "cultura na calçada").


bom, a galera do grenpeace vai para as ruas pra lembrar que estaremos a apenas 100 dias do início da reunião histórica sobre o clima que será realizada em copenhague, na dinamarca.


a missão dos 190 países participantes do encontro é definir o que fazer para combater os perigos das mudanças climáticas. nessa complicada negociação, que envolve muitos interesses econômicos e políticos, o que estará em jogo, na verdade, é o futuro da humanidade.


vamos lutar pelos nossos interesses. não dá pra ficar só assistindo, apáticos.


tá feito o convite. compareçam como aconselha o pessoal do movimento, com apitos, cornetas ou buzinas e junte-se à manifestação.


Local:
Praça da Savassi
Das 10h às 12h
dia 29 de agosto - sábado


importante: em caso de chuva, a atividade será cancelada.

a morte do medo da morte

avenida rio branco, em frente à lateral do municipal - foto: www.imageshacke.us



sábado. não me senti bem e saí mais cedo do trabalho. senti uma dor navalhando minha barriga, estômago, fígado, sei lá.

o dia já não havia começado muito bem. na verdade não havia nada de errado com o dia mas talvez comigo mesmo, que enxergava um quê de cinzento, sombrio.

talvez o probelama estivesse em meus olhos. não, talvez no coração mesmo. talvez fosse loucura. é isso, era loucura.

então, com meus devaneios somatizados na dor de estômago (barriga, fígado, sei lá), subi a rio branco à pé. gosto de andar pelo centro da cidade aos sábados. sempre consigo reparar numa série de coisas que passam despercebidas por meus olhos, mesmo fazendo os mesmos caminhos todos os dias.

à medida que andava, a dor aumentava. passando em frente ao teatro glauce rocha, parei pra ver o que estava em cartaz. por mais que estivesse me sentindo mal, jamais resistiria a passar na porta de um teatro sem me aproximar pra me energizar um pouco. tinha uma montagem de formatura da cal (casa de artes de laranjeiras). me entreti com o cartaz quando, de repente ouvi um tiro.

talvez não fosse um tiro. alguém do meu lado, me fitou perguntando: -é tiro? eu não respondi verbalmente mas fiz cara de que não sabia. meu lado racional concluiu que não devesse ser tiro por que ninguém havia corrido. olhei pra trás (estava de costas pra rua) e ninguém se mexera. a órbita do universo continuava normal, a não ser só um vira-lata que passou correndo assustado, quase me derrubando. acabei de admirar o cartaz do espetáculo e segui meu caminho, que eu nem me lembrava mais qual era.

alguma coisa mudara depois do tiro (teria mesmo sido um tiro?). senti um nó na garganta e quando arrisquei mudar o primeiro passo, descobri que estava tonto. as pernas pararam de me obedecer. olhei à minha volta e tudo continuava exatamente igual, mas então por que eu me sentia assim... morto?

algumas vezes eu imaginei que a morte fosse assim, desse jeito, você morre e leva um tempo até descobrir que morreu.

voltei e procurei pelo meu corpo estirado no chão, cheio de sangue e pessoas em volta, mas não achei nada. acho que a quem morre, deveria ser dado ao menos o direito de velar o próprio corpo. me veio na cabeça correr logo para um hospital por que não estando morto, acabaria morrendo. suava frio e ao mesmo tempo que queimava de febre.

tive medo de atravessar a rio branco. os carros cruzando na minha frente formavam um fio de luz incandescente, cegante. mirei o municipal e fui. me sentei na escadaria e esperei ter condições ao menos de andar. havia perdido a noção de realidade e não sei precisar por quanto tempo exatamente fiquei alí, parado.

(banca da cinelândia - fonte: http://theurbanearth.wordpress.com)

cambaleante, caminhei até uma banca de jornais e tomei uma água. aos poucos retomava minha consciência e ia me lembrando do que se passara. de brinde, a realidade. tive medo de ser assaltado, como se a cinelândia inteira me olhasse com olhos devoradores, como uma alcatéia de lobos cercando um pobre cordeiro. corri os olhos por alguns livros e avistei nietzsche. bom encontrá-lo alí, principalmente num dia em que tive a sinistra sensação de estar morto. não poderia ter aparecido em melhor hora.

tendo a nietzsche por companhia, segui rumo ao hospital. aumentava os passos à medida que a dor aumentava, ou a dor aumentava à medida que eu aumentava os passos, não sei bem. andei um bocado sem me dar conta da distância. segundo meu prontuário, às 14:37 dei entrada no hospital espanhol.

"aguarde!" só se ouve isso num hospital. aguardei muito, fiz alguns exames e... descobri que estava com pedra nos rins. entre outras coisas, descobri também que o medo da morte pode ser bem pior do que a própria morte em si.

metade da minha vida passou pela minha cabeça como um filme, em 30 minutos, na sala de raio x. uma sala gelada, escura, sombria, cheia de portas, armários. uma enfermeira gentilmente me encaminhou até ela, me orientou quanto aos procedimentos para o exame e se foi. parece que me esqueceram alí. me senti a pessoa mais sozinha do mundo, deitado numa chapa fria, de cueca, coberto apenas por um lençol branco, esperando por uma médica que nunca chegava. voltei a pensar na morte. sensção de miudeza.

saí do hospital às 23:40. liguei avisando que estava bem mas não quis dar endereço de onde estava e nem queria que ninguém me buscasse. precisava passar por aquilo tudo sozinho, por que, se era uma prévia do que poderá me acontecer de novo um dia (e pode ser que aconteça de forma bem mais séria e não apenas com umas pedrinhas nos rins), seria preciso que eu soubesse me virar, por que na morte, eu imagino que estejamos assim, sozinhos.

tomei um táxi saindo do hall do hospital e fui pra casa, eu, meus exames, uma garrafinha d'água e uma sacolinha de remédios. me livrei das pedras uns 5 dias depois.

não morri e perdi um pouco o medo da morte.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

"ele sabe a hora de tudo, meu filho"

o fogão a lenha e o forno de minha mãe - foto: arquivo pessoal


era um mundo pequeno (o meu) e que aos poucos ia deixando de bastar. a mesmice me tocava a ferida da curiosidade. queria sim, saber o que havia além da placa de "volte sempre" na saída da rua são joão.

as notícias vinham embrulhando latas de óleo, rapadura, ovos. jornal não era jornal, era só embrulho. embrulhos vencidos, datados de mais de um ano atrás. nas fotos em preto e branco (desbotadas) não se reconhecia pessoa alguma. talvez fosse um galã da novela.

falando em novela, nada parecia mais interessante. só um canal era transmitido e com um pouco de sorte a transmissão chegava em 4 ou 5 dias da semana (em 7), sem sair do ar.

a televisão mais próxima era na nora ney. preto e branco, mas com tela colorida, de arco-íris, com sete listras de cores diferentes.

a falta de transmissão regular aguçava a criatividade do povo. assistia-se a um capítulo, a transmissão saia do ar e o telespectador criava o próximo na imaginação, de modo que este se encaixava no próximo capítulo, que saia do ar, daí se criava outro, a transmissão saia do ar, se criava outro, e outro.

rádio não tinha problema de transmissão. pelo contrário, meu pai sintoniza até rádio do estrangeiro. falavam uma língua enrolada que não se entendia uma só palavra, mas acho que pro meu pai devia ter algum sentido. coisa de louco. gente da roça é povo meio louco. muito sozinho e pouco louco.

na rádio nacional da amazônia, depois de "uma hora com o rei" (roberto), ouvíamos as novelas da artemísia azevedo. aos sábados repetia todos os capítulos da semana. à tarde, a casa já arrumada, o porco e as galinhas tratados, tinha-se uma folga. as costuras pra dar conta poderiam ser trabalhadas ao som de "paixão proibida". minha mãe ouvia as vozes no rádio que ficava em cima do guarda-louças e projetava as cenas na parede branca, na frente da máquina de costura, como me contou um dia.

o som ziguezagueante da máquina de costura parecia som de motor de máquina de fazer novela.

(máquina de fazer novela tem som?)

"o certo é que é preciso colocar feijão pra cozinhar. a calça de tergal que foi do seu antônio tem que ser ajustada pro seu irmão" (ele ia carregar o estandarte da festa de são josé daquele ano).

a calça com cheiro de sabão de barro esperava sobre a máquina de costura. separando feijão, sentada no aterro do fogão, vez ou outra caia uma lágrima.

-tá chorando mãe?

ela dava desculpa da fumaça, atiçava as brasas, o fogo reanimava, ela disfarçava. eu não via motivos pra estar triste.

-choveu ontem. meu avô já tava desesperado por que passou do dia de chover, mas choveu.

meu avô não gostava de apelo. dizia que deus sabe a hora certa de tudo, até de mandar chuva, mas minha avó, ao vê-lo por mais de uma semana comendo de cabeça baixa, como que caçando formiga miudinha no chão, sem pronunciar uma só palavra, viu que não podia mais ficar de braços cruzados. decidiu interceder a nossa senhora, em segredo.

acordou cedo, foi na bica d'água e lavou o terço. lavar terço na bica rezando uma "ave maria" traz chuva e seca lágrimas.

meu avô continuou deixando as providências a cargo de deus e agradeceu a ele pela chuva. minha avó fazia do meu avô um homem de fé.

"ele sabe a hora de tudo, meu filho".

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

procrastinação - parei com isso

foto: marcos oliveira


começo minha semana revendo meus passos. a capa da "vida simples" desse mês fala de "amanhã eu faço". me dei conta da quantidade de coisas deixadas pra depois em minha vida. revi meus guardados e encontrei coisas que havia prometido a mim mesmo fazer a muitos anos atrás e hoje essas coisas não passam de simples frases escritas em folhas de caderno guardadas numa caixa de sapato. uma viagem curta, um e-mail que poderia ter mudado o rumo da minha vida, aquele contato, aquela palavra de elogio, aquele momento meu, deixado sempre pra depois, um tempo para amar alguém, também sempre deixado pra depois. pra quê deixar pra depois se nem sei se haverá depois? se não houver, o que terá valido a pena?

aprendi uma nova palavra: procrastinação, "do latim "postergar, atrasar, demorar, adiar, delongar". procrastinar me desgasta, consome minhas energias.

comecei arrumando minhas gavetas para chegar à arrumação da minha vida. algumas descobertas entre coisas guardadas, esquecidas. foram pro lixo coisas que só me ocupavam espaço. com elas, comportamentos, medos, angústias, resquícios de uma vida guiada por uma ideologia imediatista e vazia. é chegado o momento de pensar em mim de forma mais consistente, conjulgando sucesso profissional, amor, família, amigos, e muito de mim. descobri que o prazer de hoje nem sempre nos acompanha no café da manhã de amanhã. então, novas formas de se enxergar o tempo, o amor, o prazer, a saudade, a melancolia, a nostalgia, os amigos (estes continuam sempre presente, mesmo que só em minha poesia) passam a permear meu dia-a-dia de novos sentidos.

se havia algum resquício de alguém comigo, ou se deixei algo meu com alguém, acabo de recobrar...

...sozinho.

(à propósito, eu ainda sou meu)

parei!

"Logo agora que eu parei
Parei de te esperar
De enfeitar nosso barraco
De pendurar meus enfeites
Te fazer o café fraco, eh!...

Parei!
De pegar o carro correndo
De ligar só prá você
De entender sua família
E te compreender, êh!..."


(ana carolina, em "hoje eu tô sozinha")

ouça no play abaixo. (atentem para os arranjos de violino)